Fazer um blog? Pensei algumas vezes. Mas, escrever sobre o que? Também me perguntava. Esses questionamentos sempre foram suficientes para quando pensava assim, ficar em um cantinho e esperar a vontade de escrever passar.
Um dia assisti a um filme. Uma produção grega/turca chamada “O Tempero da Vida”. Quando a película chegou ao final levei pelo menos uns bons dez minutos para me recuperar da emoção. Logo depois, aquela vontade de escrever me tomou de súbito, agora acompanhada de uma certeza, vou falar da VIDA através daquilo que é mais básico para se viver, COMER.
Em “O Tempero da Vida”, o jovem Fanis aprende com seu avô que a essência da vida parte do alimento. Todas as forças da natureza necessitam de um adubo propulsor capaz de induzir, por exemplo, fatos históricos, científicos e culturais. Assim, a matemática, a poesia, a biologia, a astronomia e até a relação entre pessoas apresentam ligação com o que se come.
Para os indivíduos, o ato de comer é tão importante que é capaz de marcar fases da existência e da história. A “Última Ceia”, tela de Leonardo da Vinci, traduz o momento em que Cristo consagra um dos mais famosos rituais católicos, a eucaristia. A referência de um dos episódios mais populares da história vem com a passagem em que Jesus pegou no pão em suas mãos, deu graças e disse aos Seus discípulos: "Este é o meu corpo que será entregue a vós". Do mesmo modo, ao fim da ceia, Ele pegou o cálice em suas mãos, levantou ao alto e disse aos seus discípulos: "este é o meu sangue, o sangue da vida que será derramado por vós." A associação é clara ao alimento do corpo e da alma.
Não é atoa que os Reis franceses celebrizaram seus banquetes quase sempre organizados com objetivos políticos. Os encontros eram verdadeiros espetáculos e ficaram famosos. Um pouco disso pode ser constatado em “Vatel – Um Banquete para o Rei”, filme com interpretação magistral de Gérard Depardieu que mostra a obstinação de um chef por seu ofício.
Mas é em cenas bem mais simples do cotidiano que podemos perceber melhor o sentido da comida na vida das pessoas. Outro dia, andando pelo centro de Rio Branco, me chegou, não sei de onde, um cheiro adocicado indicando massa de bolacha assada. Plim! Me vi num final de tarde com dez anos de idade, sentado na varanda de minha vó Nezita em Fortaleza, esperando passar o vendedor de “chegadinha”, uma espécie de cascalho vendido no Nordeste. Quem em algum momento, tragado por sensações de cheiros e sabores, não fez uma viagem no tempo para um período especial de sua vida? Viagem tão bem representada no cinema na cena de “Ratatouille” em que após provar a tradicional iguaria francesa preparada pelo ratinho Remy, o severo crítico gastronômico Anton Ego volta a ser menino, colado na barra da saia da mãe, anciosamente esperando o que iria sair das panelas.
Uma boa comida é sempre razão para lembrar daqueles que mais gostamos. Voltando para “O Tempero da Vida”, os pratos produzidos por Fanis alimentavam seus sentimentos pelo Avô. As ervas, especiarias e temperos ajudavam a saciar a saudade entre os dois.
A cozinha une as pessoas. A mesa é um lugar de aproximação e compartilhamento. Gastronomia é uma paixão que cultuo há muito tempo e agora estou na missão de manter ativo esse diário virtual. Gostaria muito de contar com a participação de amigos nesse espaço para falarmos da vida e compartilharmos experiências gastronômicas. Participarmos, como já disse, de uma viagem motivada por cheiros e sabores. O passaporte para isso? A boa comida.
Nas lembranças de Fanis a deliciosa maneira de aprender sobre a vida
Em” Vatel – Um banquete para o Rei” é possível perceber a paixão de um cozinheiro por seu ofício, bem como o verdadeiro sentido de um banquete.
Já em “Ratatouille” fica claro como a combinação cheiro e sabor é capaz de proporcionar uma verdadeira viagem no tempo.